quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Política com P, maiúsculo

A política precisa voltar a ser movida por ideais, por valores, e ser orquestrada por gente honesta, honrada. O vídeo feito pela filha do Franco Montoro é de fato emocionante. Mostra a sua trajetória política e, ao mesmo tempo, o homem, o pai, o grande líder. Para quem gosta de política, com P, assim, maiúsculo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um exemplo que vem de fora

Durante a realização da I ONG Brasil, em dezembro do ano passado, além das mais de 500 organizações brasileiras que participaram, algumas ONGs internacionais vieram mostrar a sua experiência e interagir com as demais ONGs.
O texto a seguir é parte de um dos capítulos do livro que deve ser lançado até o final do ano e que conta a experiência das organizações sociais sem fins lucrativos no país e que transcrevo após ler, no facebook, o desespero e a tristeza que compartilho dos habitantes da linda Águas da Prata que há três dias está queimando, deixando um rastro de animais e árvores mortos em sua matas ainda intocadas. Talvez o trabalho da OXFAM Brasil possa inspirar parcerias e a tragédia servir de alerta para que finalmente se crie uma Brigada de Incêndio no local.
Todo ano pega fogo. Sempre nos mesmos lugares. Sempre de forma criminosa. O deste ano foi pior. Mas não será o último. Cabe agora às autoridades e à sociedade civil organizada criar mecanismos de prevenção e controle.

“...Representada na ONG Brasil por Athayde Motta, gerente do programa no Brasil, a OXFAM/GB foi fundada na Inglaterra na década de 40 teve sua raiz na ajuda humanitária, ligada às tragédias. Em especial, o que motivou a criação da entidade foi uma crise de fome na Índia. O nome da organização já traz esta marca: “OX” como uma alusão à cidade de sua fundação, Oxford e “FAM”, de fome. Em seus primórdios, a organização funcionava como um comitê, para ajudar na fome na Índia. A organização é muito conhecida na Europa graças, sobretudo, às 700 lojas tipo brechó, de onde vêm a sua principal fonte de financiamento.
A OXFAM logo se espalhou dividindo-se em 14 instituições que atuam em 60 países. O método de trabalho se multiplicou, com cada organização tendo um programa e um orçamento. Cada unidade é independente e se afilia à OXFAM Internacional, que faz as campanhas globais. Agora, todo o foco internacional está nas mudanças climáticas.
No Brasil a OXFAM/ GB atua há 50 anos. Atualmente a sede está em Recife. Em Brasília tem um escritório de OXFAM Internacional que une as três OXFAM que atuam no país: A OXFAM/GB, a OXFAM Novib, a OXFAM Intermon. O escritório em Brasília só faz influência em políticas públicas.
No Brasil, umas das áreas de atuação da OXFAM/ GB é na questão humanitária. Têm equipes, treinamento, programas, caminhão, barco, água e sistemas de ajuda. “Quanto maior a tragédia, mais recursos a OXFAM coloca na ajuda. E ajuda técnica. Quando precisa tirar pessoas de escombros, precisa ser técnico, não adianta mandar qualquer pessoa para ajudar”, conta Athayde.
Prova maior de quão técnica e preparada é a instituição e o quanto isso se faz necessário, é a ajuda fundamental oferecida pela organização, nos recentes terremotos do Haiti e do Chile.
A outra parte pela qual a OXFAM é muito conhecida no país é advocacy (campanha). São ações de Direitos Civis sobre temas da atualidade com vistas a influenciar governos e legisladores e propor políticas públicas. No Brasil, a organização atua na campanha de mudanças climáticas, a favor do desarmamento e do comércio justo e solidário.
A outra área é a de programas de desenvolvimento. “A idéia é fazer com que as três áreas atuem juntas, se relacionem e se influenciem uma à outra”, diz Athayde.
No Brasil há ainda um programa humanitário. “Todo ano tem desastres que precisam de respostas humanitárias. A OXFAM atua em alguns estados onde mobiliza comunidades para que possam se recuperar do desastre, incentivando a produção de políticas públicas, para que haja uma boa resposta a estes fatos”, conta.
O cenário no planejamento de ações
Um dos cenários do qual parte o planejamento das ações da OXFAM é que o mundo está mudando de diversas formas. Como qualquer mudança, ela traz no seu bojo coisas boas e ruins. “Uma coisa boa é que Brasil está saindo do patamar de país pobre, para um país de renda média. A ruim é que o Brasil está saindo do patamar de país pobre para um país de renda média, que continua com grandes bolsões de pobreza. Por isso o trabalho da OXFAM e de outras organizações continua tão importante”, ensina Athayde.
As mudanças climáticas, a escassez de recursos e a crise econômica global, configuram cenários mais amplos e fazem com que haja uma maior desigualdade e vulnerabilidade no mundo. No Brasil, os pobres continuam muito pobres.
A OXFAM vem discutindo com o governo e outras organizações, a criação de um programa de redução de risco de desastres, como a principal política pública brasileira.
São medidas que atuam de um lado na prevenção e no outro para que, se o desastre acontecer, que tenha um impacto pequeno. “Todo mundo sabe que vai chover. Chove todo ano. Chove no mesmo lugar e só aumenta o número de vítimas. É preciso minimizar ao máximo possível os danos, tanto econômicos, quanto de vidas. Queremos atuar nisso como prioridade. Há áreas que requerem mudanças estruturais, de saneamento, de moradia, mas também é importante que as comunidades estejam prontas para atuar num desastre”, diz Athayde.
Pode-se dizer que as ações da OXFAM são catalizadoras, mobilizadoras, influenciadoras e organizadoras. Ela faz o papel de intermediária entre a sociedade civil e o governo, com vista a gerar Estados eficazes para enfrentar a pobreza. Pretende-se com isso, gerar maior igualdade e melhor governança, entendendo-se com melhor qualidade do governo.
A OXFAM não opera nada diretamente. Ela faz parceria com outras organizações que executam as tarefas. No Brasil são 25 parceiros, da OXFAM/GB. “

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Por uma reforma política já!

Assisti ao debate da Band e do Uol e vi o primeiro dia de propaganda eleitoral – inteiro e sem cortes. Em todos fiquei com uma sensação tão ruim que me fez vir para cá e desabafar. O que aconteceu com a política brasileira? Em que ponto os caminhos ficaram tão parecidos que são indissociáveis? Onde foi parar o interesse e a veracidade?
A eleição parece envolta em uma névoa, como se pertencesse a um universo paralelo, sem conexão com a realidade, com o dia-a-dia das pessoas. Tudo tão raso, tão marketeiro, que não sei se o pior era o musical na favela virtual do Serra, que agora é Zé, ou o fundo falso do Oiapoque ao Chuí, de Dilma com sua maquiagem perfeita e sorriso de botox... Ou ainda se seria a tristeza cômica, com um humor chulo e barato para ser vendido em módicas fatias e fazer sorrir, quando deveria provocar o asco... Nem a Marina escapou com aquele programa recém saído da Discovery Channel, com imagens internacionais, como se aqui nunca tivesse acontecido tragédias climáticas e fosse preciso assustar ainda mais o povo do que ele já está.
Nos debates o cardápio é uma sopa de letrinhas -Prouni, AME, Enem, LRF - que combina com a “farofa de números” que os candidatos apresentam muitas vezes multiplicados e adicionados e falseados e nada de nada...
Fico imaginando os grandes mestres da política neste cenário. Gente da estatura de um Franco Montoro, de um Tancredo Neves e também gente anônima que viu os seus sonhos morrerem nos porões da ditadura militar... Gente que fez da vida uma luta pela conquista de direitos e que lutou para que tivéssemos agora o direito de debater, votar e escolher livremente os nossos representantes...
Tanto esforço e o resultado é isso?
Sou uma otimista incurável. Tenho fé nas pessoas e gosto do ser humano, de maneira geral. Vejo o fosso que separa os que pensam daqueles que votam com o rugir dos chicotes que alardeiam a seu tempo a paz ou miséria, como melhor convém. E o nosso sistema eleitoral só perpetua isso.
E sempre o céu ou o inferno. A eterna luta do bem e o mal...
No primeiro dia, o cardápio oferecia três realidades distintas: o Brasil bonito e perfeito de Lula; o Brasil cheio de problemas de Serra e o respiro no Animal Planet da Marina.
Nenhum deles é verdadeiro. Nenhum deles é o “Brasil dos brasileiros.” Nenhum deles mostra os problemas reais e o povo é que sairá com a pecha de “culpado” porque os mais sinceros parecem ser o Tiririca, a mulher Pera, o não sei o que Bisteca e, claro, o marido da Mara Maravilha, quando, na verdade eles também são frutos da mesma máquina eleitoral que fabrica candidatos.
O site do Tiririca é coisa de profissional. Tem mídias sociais, interatividade e é pensado para ser popular, com cores vibrantes, muita imagem e pouco texto. Ele faz visita às cidades, não está brincando de ser candidato. É candidato de verdade e tem agenda de compromissos. O que ele não tem: proposta. Mas parece que ninguém liga para isso mesmo.
A primeira vez que eu vi a mulher pêra foi a cerca de dois anos. Foi em um evento na Prefeitura de São Paulo e quando vi aquela mulher com a cintura deformada, vestida de chapeuzinho vermelho (ela estava com uma capa vermelha que encobria uma mini roupa verde e carregava uma cestinha com frutas) achei que era um happening. E fui cobrar quem é que tinha inventado aquilo. Até que fui informada de quem era a dita cuja e soube que o fato dela estar ali era um termômetro de sucesso – sinal de que as televisões viriam. Não demorou muito e as TVs apareceram e ela deixou a capa cair, para espanto e quase enfarto de alguns homens presentes... Pois bem, ela também tem site e agenda. Só não tem...propostas ,mas parece que é dispensável mesmo.
A única solução é uma reforma política. Já. Com voto distrital, sem obrigatoriedade de voto e sem doação “por fora” de empresas e pessoas.
A obrigatoriedade dos votos nos torna refém deste estado de coisas. A propaganda é direcionada aos indecisos, aos que nem lembram em que votaram. A propaganda serve aos que decidem a eleição: a massa de manobra.
Sem o voto obrigatório, o universo político seria outro...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

São João na Revolução de 32

Entre 1930 e 1945, enquanto durou a ditadura instaurada por Getúlio Vargas, os únicos registros escritos, da vida da cidade, estão nas páginas do O MUNICÍPIO. Inclusive os referentes à Revolução Constitucionalista de 1932, que contou com combates na Cascata, até então, pertencente ao município de São João.
Getúlio fechou as Câmaras Municipais em duas ocasiões: Entre 1930 e 1935, e depois de 1937 a 1945, no período, em configurou o “Estado Novo”, quando o país vivia sobre uma sombria ditadura.
Com prefeitos nomeados, censura e a Câmara Municipal fechadas, os relatos, ainda que passíveis de falhas, estão nas páginas deste semanário que nunca deixou de circular, apesar das atribulações daquele momento.
O diretor do Jornal, desde 1914, era João Christiano Lühmann, o filho mais velho do fundador do O MUNIICIPIO, Carlos Lühmann. Ao lado da mãe Luise e do irmão mais novo Walter, João Lühmann era o comandante da redação.
Com textos absolutamente bem escritos, João Lühmann nos leva a um outro tempo. Idealista, íntegro e honesto, as páginas por ele lideradas são exemplos de como fazer jornalismo e dirigir jornais. Havia espaço para todas as crenças e correntes políticas. Havia coragem para denunciar e delicadeza para tratar os oponentes e, sobretudo, hombridade para reconhecer erros. Elegância talvez seja a principal marca deste período, ainda que veementemente, clamasse pelos ideais que acreditava.
Em 1944, João Lühmann morre. Toma o seu lugar Walter Lühmann, que ficará à frente da redação até 1956 e de quem falaremos em outra edição.

O GOLPE DE GETÚLIO
Nas eleições de 1930, o candidato da oposição, Getúlio Vargas, havia sido derrotado nas urnas. Alguns meses mais tarde, Vargas lideraria um golpe que o conduziria à presidência da República. A política brasileira do início do século XX era comandada pelos grandes proprietários de terra.
Setores da classe média, proprietários de terra sem representação no governo, além de jovens oficiais do Exército, não aceitam mais um governo a serviço dos fazendeiros do café. Diversas revoltas militares explodiram ao longo dos anos 20.
Com a grande depressão, em 1929, os preços do café despencaram. A saca, que custava duzentos mil réis em agosto de 29, passa a 21 mil réis em janeiro do ano seguinte. A crise atinge toda a economia brasileira. Mais de 500 fábricas fecham as portas em São Paulo e Rio de Janeiro. O país tem quase dois milhões de desempregados no final de 1929. A miséria e a fome atingem a maioria da população.
Em janeiro de 1930, o presidente da República, Washington Luis, de São Paulo, lança o também paulista Júlio Prestes para a sua sucessão.
A Aliança Liberal, uma frente de oposição, apresenta o gaúcho Getúlio Vargas como candidato à presidência, tendo o paraibano João Pessoa como vice. Mas as eleições dão a vitória ao candidato do governo.
Em julho de 1930, após o assassinato de João Pessoa, a Aliança Liberal se une aos militares e inicia uma revolução. O Presidente Washington Luis é deposto. O candidato eleito, Júlio Prestes, se refugia na Embaixada Inglesa.
Em 3 de novembro de 1930, após inúmeras batalhas, Getúlio Vargas assume a chefia do Governo Provisório. Era o fim da República Velha.

EM SÃO JOÃO
A cidade não passou imune à crise do café e à Revolução. O Jornal O MUNICÍPIO, fundado com a senha de jornal “ao lado do povo”, desde o início fez campanha para a necessidade de se tomar o poder das classes dominantes e de apoio à candidatura de Getúlio Vargas.
Mas tais fatos não podiam ser veiculados. João Lühmann assim explica, em 3 de março do ano seguinte. “O governo do Estado, nos dias angustiosos da revolução, proibia aos jornais a divulgação de notícias que não fossem as oficiais.
Em recompensa a essa obediência, fornecia notícias mentirosas do movimento, que sempre nos recusamos a publicar, pois antes silenciar do que ludibriar o público com as notas oficiais”.
Para cumprir a determinação oficial, cada cidade tinha um censor. “Nos saímos muito bem”, afirma João Lühmann, em 1931. Segundo ele, “O MUNICÍPIO continuou a sair regularmente e jamais o censor da imprensa - aliás um moço muito correto - pôde cortar uma linha sequer do nosso jornal”, escreveu João.
Estende-se, daí, o entusiasmo com que o jornal comemora a revolução de 24 de outubro de 1930.
No dia 15 de novembro de 1930, João Lühmann escreve um texto, diagramado em forma de mapa do Brasil, onde exalta os valores populares da revolução.
Não por acaso, dedica o texto ao Cel. Ernesto de Oliveira, “com respeito”, que era um dos coronéis do Café, da época. Diz João Lühmann: “Hoje se comemora a passagem de mais um aniversário da República.
Entretanto, no atual regime bem poucos dias de felicidade tivemos, pois a pátria vivia enxovalhada pelos abutres que se assentaram no poder, que viviam a oprimir o povo, roubando-lhe os direitos de liberdade nas urnas, em flagrante desrespeito à nossa Constituição. Crimes hediondos, roubos vergonhosos, esbulhos e fraudes foram praticados contra a nação e contra o povo brasileiro, pelos homens que se assenhorearam do bastão do mando, infelicitando esta grande pátria...”
Mais adiante, conclui João Lühmann: “Felizmente agora a pátria está livre dos exploradores que a aniquilavam.
Mas para isso precisou que se derramasse sangue brasileiro, precisou que o Brasil, novamente, se tornasse pátria grande, de muitos bravos, que souberam manejar fuzis e bramir espadas com o risco da própria vida, pela conquista de um ideal nobilitante... Vejo que no Brasil tudo é grande, inclusive os homens, pois os indignos foram postos à margem”.
Como o futuro tem a desvantagem de ainda não ter acontecido, mal podia supor, o democrata João Lühmann, do que estava por vir.
Ainda que o jornal fosse, desde o seu início, partidário das causas populares, nem por isso, deixava de abrigar, em suas colunas, artigos de pessoas com pensamento diametralmente oposto ao dos seus diretores.
Assim, em diversas ocasiões se vê críticas - até bombásticas - ao governo provisório de Getúlio Vargas.

A DEMOCRACIA

O tempo vai passando e cada vez mais, na redação libertária e democrática do O MUNICÍPIO, a convivência com a ditadura imposta por Vargas, a partir de 1930, causa mal estar.
No início de 1932, o clamor por uma Constituinte se faz sentir no jornal. Ainda que defenda o governo provisório, O MUNICÍPIO começa a pedir a instalação de uma Assembléia Constituinte, que redija uma nova Constituição e que traga, novamente, o país à sua normalidade, com eleições para todos os níveis de poder. Em quase todas as edições há artigos que pedem a volta de um regime democrático, ainda que defenda a legalidade do governo Vargas.
Dentre os pontos positivos do governo, o jornal destaca a legalização do Partido Constitucionalista, o reconhecimento oficial dos sindicatos e o aumento de salários, que beneficiaram a população.
No dia 3 de março de 1932, em edição comemorativa ao aniversário do jornal, os seus redatores anunciam: A Revolução fracassou. E fazem uma análise onde transparece a decepção com o governo. Alguns fatos corroboram para isso, dentre eles, o empastelamento do Diário Carioca e a proibição do Comício em Prol da Constituinte, que teria lugar em São Paulo em fevereiro daquele ano.
A partir de maio, com a morte de 4 estudantes paulistas, em Comício que apelava para que a Constituição fosse feita, O MUNICÍPIO adere à campanha em defesa de São Paulo.
Em 25 de julho de 1932 têm início os primeiros combates na Cascata, com voluntários sanjoanenses. O jornal até o fim da revolução faz um relato minucioso das lutas ali travadas, com nomes dos participantes, os apoios oferecidos pela comunidade e combates.
Em 10 de setembro de 1932, o jornal traz comunicado oficial onde o prefeito militar afirma que a cidade estava em poder dos federalistas. Mas a revolução não acabara. Nos jornais seguintes, saem publicadas cartas do “front”, que sanjoanenses, combatentes em outras paragens, enviavam.
A revolução constitucionalista termina em outubro. O governo vence. Mas a Constituição tão almejada é feita em 1934 o que dá o título de “vencedor moral”, da Revolução de 32, ao Estado de São Paulo.

Poraceba?...Nunca! bradava o O MUNICIPIO

Em 10 de maio de 1944, o jornal O MUNICIPIO abria a sua edição estampando em letras garrafais: Protestamos!Poraceba?... Nunca. O jornal afirmava que havia circulado pela cidade, uma notícia de que o Serviço Geográfico do país, procurando mudar os nomes das cidades que existem em duplicidade, enviou um telegrama ao então prefeito da época, comunicando a mudança do nome da cidade para Poraceba.
Assim o jornal se manifestava: “O MUNICÍPIO, jornal inteiramente dedicado aos interesses da cidade, do seu povo e do seu bem estar moral e material, não concordará com tal mudança e lança, desde este momento, o seu veemente protesto”.
Poraceba é uma palavra do idioma conhecido como tupi-guarani. Uma língua, que na verdade nunca existiu, pois as nações tupis e guaranis eram distintas, com hábitos e linguagens diferentes.
O tupi antigo, mesclado ao tupiniquim, tupinambá, tupinaé, tabajara e outras línguas, somado ao português, deu origem à Lingua Geral, que predominou na Costa Brasileira, até 1750.
Mas o Tupi teve seu uso e ensino proibidos por Marquês de Pombal, em 1759, mandando o tupi para o esquecimento. Somente no final do século XIX é que o país voltaria os olhos para a língua Tupi esquecida.
Durante o Estado Novo, quando Getúlio Vargas estava no poder e quando o indianista Marechal Rondon havia se tornado uma lenda, havia um sentimento de valorização nacionalista. Getúlio, com o propósito de organizar o nome das cidades, que em muitos casos eram idênticos, resolveu mudar os nomes através de Decretos.
Nem sempre a mudança era bem aceita, mas, ainda assim, diversas cidades brasileiras tiveram seus nomes modificados.
No dia 17 de maio de 1944, o jornal volta a falar no assunto e transcreve parte do pronunciamento de José de Azevedo Oliveira, conhecido como “Zé Poeta”, no Rotary Club local.
Ele lembra que a cidade nunca teve outro nome, além de São João da Boa Vista. Em todos os registros oficiais, desde que era uma capela, passando depois a freguesia, vila e cidade, o nome São João da Boa Vista se manteve.
Nos primórdios da história sanjoanense, o lugar era conhecido como São João do Jaguari. No entanto, este nome nunca constou de nenhum documento oficial.
Zé Poeta lembra, ainda, que durante o governo paulista de Jorge Tibiriçá (governou São Paulo de 18/10/1890 a 07/03/1891) houve uma tentativa de mudança do nome. Naquela época, o governo já havia mudado o nome da cidade de Penha do Rio do Peixe, para Itapira (que significa Pedra Alta), e pretendia transformar São João da Boa Vista em Ceporama. Ele explicava que “Ce” significa “ ver”, enquanto “porã” significa bom ou belo. Logo, Ceporama, significava Ver o Belo. A iniciativa do governador Jorge Tibiriçá causou revolta na cidade.
Segundo o jornal, houve violentos protestos, comícios, muitos discursos e ameaças. Os políticos se movimentaram e tudo voltou à calmaria.
A ameaça de nova mudança também motivava ânimos poucos amistosos. Zé Poeta, inclusive, dizia que a denominação Poraceba estava errada. Segundo ele, “Porã” quer dizer bom, “Ce”, ver e “Bo” seria uma partícula substantivadora que torna o verbo um substantivo. Assim, “cebo” significaria vista. Portanto a palavra correta para substituir São João da Boa Vista seria Porancebo.
Diga-se de passagem, a emenda era pior que o soneto.
A polêmica foi esquentando. Em 21 de maio, do mesmo ano, o jornal republica uma notícia retirada da “Gazeta de Limeira”, do dia 17 de maio de 1944.
Sob o título “Nomenclatura Rebarbativa”, o articulista Léu Lauro (possivelmente um pseudônimo) assim começa o seu artigo “Faça-me tudo, mas não me troquem de nome”. Ele seguia afirmando que as cidades também tinham nomes e estes deviam ser respeitados. Depois, usa toda a sua verborragia para atacar “esta novidade” que assolava o país. “Se uma troca se faz imprescindível, que ao menos não escolha um nome tupi-guarani. É talvez a pior desgraça de feiúra que pode acontecer a uma cidade. São João da Boa Vista, por exemplo, está ameaçada de ser “Poraceba”. É mister que ouçais bem: Poraceba, para verificardes o horrível do atentado”.
Mais à frente ele diz: “Que morram de amores alguns indianistas pela paupérrima linguagem tupi-guarani e queiram com ela encher colunas de jornais e horas soporíferas de conferências, vá. Não queiram, entretanto, que a gente goste destas calamidades: Ibiúna, Iboruna, Pirapuana, Pacatuna, Arapiúna e outras unas portentosas. A gente aceita porque não tem remédio. Aceita mas não gosta. Não gosta mesmo”.

DESMENTIDO

No dia 27 de maio, o jornal conta que havia sido enviada uma carta ao dr. Antonio Cícero, do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, pedindo que ele interviesse em favor de São João, junto ao Centro Geográfico, para que a mudança do nome não ocorresse.
Cícero ligou para Oliveira Neto informando que estivera no Centro Geográfico e que a mudança de nome, em São João da Boa Vista, não aconteceria.
No dia 31 de maio, o jornal publica carta recebida pelo professor Roque Fiori, escrita por Mário R. Nunes, funcionário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Nela, Nunes afirma que sobre o caso “poracebaico é pura invencionice”. Assim diz a carta: “Ontem estive com o dr. Cardoso, do Conselho Nacional de Geografia, informando-me ele, que trouxera o Embaixador Macedo Soares na Quinta-feira pp, de São Paulo, a relação dos municípios paulistas com a nova toponímia, para o qüinqüênio 44-48, da qual não figura São João da Boa Vista, para qualquer modificação. Estamos assim mais tranqüilos e o grande amigo não correrá o risco de se tornar poracebano ou poracebense.”
A carta punha fim à questão. Nunca se saberá de onde partiu a notícia divulgada pelas agências telegráficas e comunicada ao Prefeito Municipal. Se era brincadeira foi de mal gosto. Mas que surtiu grandes preocupações não há dúvida.

CARACOL

Outras cidades da região tiveram seus nomes mudados, em diversas épocas. Andradas, por exemplo, era Caracol. Antes, a cidade havia se chamado Samambaia e depois São Sebastião do Jaguari. O nome de Caracol é uma referência à Serra do Caracol, que faz parte da maior caldeira vulcânica extinta do mundo, com o diâmetro de 35km. Em 1925, a vila foi elevada à categoria de cidade, já com o nome de Caracol. Por iniciativa do presidente da Câmara Municipal, Orestes Gomes de Carvalho, em 1928, o nome da cidade mudou: Caracol passou a se chamar Andradas, em homenagem ao então governador de Minas, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada. A população não gostou muito. Mas como também não estava muito satisfeita com Caracol, o nome permanece até hoje.

CASCAVEL

Em 30 de novembro 1994, o Distrito de Cascavel foi reconhecido como município e emancipou-se de São João, para tornar-se Aguaí. Como já havia outras duas cidades com o nome de Cascavel, foi feito um plebiscito, na cidade, com uma lista de três nomes: Toripá, Tessaindaba e Aguaí. Para felicidade do povo cascavelense o nome Aguaí foi o escolhido.
Em Guarani, Aguaí significa redondo, fruta amarela, guizo de metal, guizo de cobra Cascavel, segundo informa Emílio Lansac, na edição do O MUNICÍPIO de 31 de dezembro de 1944.
Ele lança um pontificado para aquela cidade que nascia: “Que o nome Aguaí signifique, pois, por extensão, numa forma graciosa, o alvoroço, o entusiasmo do trabalho feliz de um povo oferecendo aos brasileiros os furtos maduros que um milagre de boa vontade e de esforço produziu em pleno descampado, sobre a areia escaldante onde se ergue, presentemente, a próspera e bonita cidade”.
O nome Cascavel naquela localidade era bastante antigo. Segundo relato publicado no O MUNICÍPIO na mesma data, a vila era conhecida como “Potreiro de Cascavel”, devido à existência de uma enorme cobra cascavel, moradora à margem de um Córrego. Potreiro, de acordo com o dicionário Aurélio, significa “Pequeno campo fechado, com pasto e aguada, destinado a recolher animais”.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Hoje os sinos dobram por Pedro

“...a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano, e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”,Jonh Donne

Hemingway foi buscar no poeta inglês Jonh Donne o título para uma das maiores obras da literatura mundial:Por quem os sinos dobram. Hoje também procuro o poeta da morte para entender a tristeza que sinto. Neste momento em que escrevo, o corpo de Pedro Yamaguchi Teixeira deve estar chegando à São Paulo. Ele morreu afogado, no Rio Negro, a 40 quilômetros do município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, onde atuava na Pastoral Indígena. Seu pai, o deputado federal Paulo Teixeira, certamente estará neste último vôo. Posso antever a mãe Alice e os irmãos de Pedro na espera.
Não os conheço intimamente, mas os conheço o suficiente para sentir a dor que a tragédia causa. Tivemos encontros improvisados pela vida, sempre marcado pela nossa “origem geográfica” – eu de São João e o Paulão, de Águas da Prata, cidades irmãs-, pela política daqui, ou de Sampa e pelos amigos comuns. No entanto, a morte de Pedro, o primogênito de seis irmãos, me pegou de um jeito que não previa. Em minha mente reaparecem cenas do Pedro que vi: vejo ele e a família, na Fazenda Laranjeiras, aqui em São João, quando vieram passar férias; depois ele com os primos na Prata, na casa do seu tio Fernando, ou na praça daquela cidade, em um determinado Carnaval; lembro também do pai dele contando que o filho mais velho estava fazendo Direito, com certo orgulho pelo menino escolher a mesma carreira que ele, a mãe e o avô. A última imagem que lembro é ele de terno, em Brasília, feliz por ter conseguido uma credencial para entrar no plenário para fotografar o pai, em sua posse como deputado federal. Lembro do seu olhar de orgulho daquele pai, mas sem nenhum sinal de afetação. Lembro do ar sério, da preocupação com as irmãs, que se evidenciou num dia remoto, acho que em 94, quando ele ligou para o pai , que estava na votação do orçamento na Assembléia Paulista, para dizer que a irmã se atrasara na volta do balé e já estava escurecendo em São Miguel Paulista, onde moravam...
Mais ainda me vem muito clara a imagem bonita dos pais e dos filhos juntos. Vê-los juntos era uma coisa! Primeiro pela quantidade: uma escadinha. Todos muito educados, simpáticos e afáveis; depois, o que chamava atenção era o carinho de uns pelos outros. O respeito, a dedicação...
São relances, que nem de longe traçam uma vida. Deviam haver desavenças quando uma das meninas pegava a calça jeans da outra e esquecia de lavar, ou quando os meninos não queriam acompanhar os pais... Mas nada disso transparecia, naquela placidez japonesa que a mãe ensinou. Há anos não os vejo, mas a perda me atingiu como se fôramos íntimos. Acho que, justamente, por quebrar a aura de perfeição que os embalava, mas também pela gratuidade da morte, que por mais que tente entender, nunca a compreendo de verdade.
Ao final do discurso que fez antes de partir em missão, Pedro disse em fevereiro:
“...Quero viver, escrever uma gostosa poesia de minha vida. Poder respirar um ar puro, contemplar a mata e os animais, estar em contato com culturas diferentes, jogar mais futebol, estar no paraíso natural. Como diz a poesia do sambista Candeia, cantada na voz de Cartola: “deixe-me ir, preciso andar, vou por ai a procurar, sorrir pra não chorar. Quero assistir ao sol nascer, ver as águas do rio correr, ouvir os pássaros cantar, eu quero nascer, quero viver”.
Queria também outras coisas. No mesmo discurso gritava e exigia justiça social, como só a inteireza da juventude é capaz.
Entrou em contato com o que chamou de “lado B” do Brasil, ao conhecer o mundo da Pastoral Carcerária em São Paulo. Ao ver o lado B, conseguiu enxergar as mazelas de um povo, para os quais a sociedade já não tem mais olhos de ver. Lá estão escancaradas as dificuldades de um universo dominado pela injustiça, pela discriminação racial, pela violação de direitos essenciais. Atuou três anos neste universo, mas não preferiu como muitos “anestesiar-se” e fez a opção por mudar em si, aquilo que via como descalabro no mundo: foi para a Amazônia, para defender direitos de índios, da população ribeirinha e a natureza, mãe de todas as outras coisas. Despojou-se de bens materiais para viver a vida como os mais excluídos.
Morreu afogado, três meses depois, enquanto nadava no Rio Negro.
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Em ocasiões muito especiais as portas dos céus se abrem e caem, cá na terra, seres que modificam tudo a seu redor. A história está cheia de exemplos assim. Na Grécia Antiga, as portas do Olimpo se abriram no Século de Pérícles, quando Atenas se tornou o centro do mundo. Lá estavam Sócrates e Platão, Aspásia de Mileto e o próprio Péricles, Fídias para construir a Acrópole, Anaxágoras, Heródoto, Sófocles e um pouquinho antes, mas também contemporâneo de todos Artistóteles. Depois as comportas novamente se abriram na Itália para brindar o mundo com as obras de Michelangelo,Leonardo da Vinci , Rafael, Boticelli, Tintoretto e mais uma dezena de pintores. O mundo já havia mudado um século antes, com a propagação da cultura através da prensa do alemão Guttemberg que permitiu, cem anos depois, que a realidade dura e fria do poder fosse revelada por Nicolau Maquiavel em O Príncipe e a filosofia hierática e herege de Giordano Bruno ganhasse o mundo. Depois, no século da luzes, foi a vez de Decartes, Voltaire e Rousseau darem cartas vigentes até hoje, no racionalismo dialético do primeiro, na sofisticação erudita do segundo e no puritanismo do “bom selvagem”, do terceiro. Há exemplos mais antigos que unem a construção das pirâmides do Egito em 2700 – 2200 AC, ou o fortalecimento da cultura Maia na América do Sul, em 100 AC e o nascimento de Cristo, mudando uma era...
Nos tempos atuais, o céu parece mais generoso e junta, vez por outra, pessoas que mudam a vida a seu modo. Que outra explicação haveria para o fato de juntar a genialidade de João Gilberto, com a dedicação operária e também genial de Tom Jobim e ainda um poetinha Vinícius na mesma cidade, na mesma época, para uns inventar a Bossa Nova e outros consagrá-la? Na década de 50, as portas do céu estavam mesmo escancaradas, pois desta época ainda são Chico Buarque, Jorge Bem Jor, Roberto Carlos, Elis os fabulosos baianos Caetano, Gil, Bethania, Gal, Caymi e muitos outros.

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Em nossa vida cotidiana ás vezes vislumbramos aberturas celestias, quando somos brindados participando de momentos assim, ou apenas testemunhando a sua existência.
Pedro, me parece, era um destes anjos que nos visitam para fazer a vida ter mais sentido. Quem ele não conseguiu atingir com a sua vida, acabou fazendo com a sua morte. Me lembra uma música da época da ditadura que afirmava que as idéias não morrem ao dizer “Você me prende vivo e eu escapo morto”..
Pedro escapou morto. Tenho certeza que encontrou o que foi buscar no Amazonas e encerrou a missão. Vá em paz Pedro e vele para que sua família não perca o elo de amor que sempre foi a sua maior marca.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O futuro chegou!

Quem é da minha geração e portanto tem mais de 40, nunca pensou ver o Brasil como ele está hoje. Era impensável para esta geração sonhar com o Brasil sede da Copa, das Olimpíadas, sem inflação, com acesso a tecnologia de primeiro mundo e não apenas pagando a dívida com o FMI, mas também emprestando dinheiro!
Sem contar, agora, com a nossa novíssima posição de mediadores da paz, no Oriente Médio. Esta nova orientação mundial passa ao largo dos Estados Unidos e põe em cheque a mal disfarçada pretensão de dominação do planeta, pelos americanos. Claro que pode dar em nada. Mas só o fato de ter sido um acordo forjado por Brasil e Turquia já muda o mapa do poder no mundo e, de quebra, nos põe pela primeira vez nele.
Soa a “dor de cotovelo” as imposições de sanções americanas acompanhadas pelos próceres do dito primeiro mundo, que não foram capazes de avançar nas negociações. As sanções só atingem diretamente o povo que não é quem fabrica bomba e nem de longe impede o avanço do enriquecimento de urânio. Nada o impede, a bem da verdade. Mas o acordo, nas bases pensadas pela ONU, através da AIEA – Agência Internacional de Energia Atômica dá mostras de boa vontade do restante do mundo com a República Islâmica e caminha para a Paz desejada. ( O acordo prevê que o Irã entregue à Turquia 1,2 mil quilos de urânio pouco enriquecido para receber, no prazo de um ano, 120 quilos do combustível enriquecido a 20%, nível suficiente para o reator médico pretendido pelo país. Estados Unidos e Cia, dizem que o país tem interesses bélicos. Para constar: a bomba atômica requer enriquecimento a 90%).
Cresci ouvindo que somos o país do futuro. Parece que finalmente ele chegou.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Domingo Feliz

_Estão todos aqui?
Perguntava alguém. Começava então a contagem das crianças: um, dois , três...onze com a Delinha... Delinha, minha irmã, ainda no colo, era a caçula de uma turma de primos e primas que se espremiam como podiam no carro de meu tio, para domingos de passeio e poeira. Às vezes era um fusca e de que jeito cabiam dois ou três adultos, mais a criançada nele, é um destes mistérios que se perdem na infância.
Íamos ao sítio dos avós dos meus primos, se era época de manga. Lá tinha manga “Coração de Boi”, que eu nunca mais vi, e que era enorme. A casca tinha um tom entre o vermelho e o roxo, mais para o roxo se me lembro bem.
Mas, quando nos cabia escolher, o nosso lugar preferido era o Bosque em Águas da Prata para disputar um lugar nos balanços, gangorras e escorregadores instalados na sombra de árvores centenárias; tomar sorvete e comer milho verde cozido.
Justiça seja feita, o que nos motivavam eram os balanços e todo o resto era secundário. Voávamos em direção às árvores, sempre rindo, numa sensação de liberdade que ainda hoje invade meus sonhos quando neles vôo para lugares desconhecidos.
O balanço instalado com correntes eram altos e, para nós, alcançavam velocidade de cruzeiro ao deixar os pés próximo das folhas das árvores. Tinha sempre muita gente. Conseguir um balanço requeria certa estratégia e muitos conchavos entre os primos que “guardavam lugar” para quem estava sem. Lembro bem que depois que você dominava a arte de dar “galeio”, as vozes desapareciam e você se transportava para um lugar onde só existia você e as árvores. Tudo o mais era silêncio, o vento no rosto e um transplantar para um outro mundo. Dava um certo frio na barriga, mas o prazer era maior e o tempo voava junto a cada galeio.
Esta e muitas outras histórias lembramos no Dia das Mães, ao reencontrarmos primos que não víamos há muito tempo, além é claro da minha tia Lola querida e o Tio Antonio, especialista em historias de assombração e fim do mundo - que deixo para uma outra ocasião.
Éramos uma boa turminha, inseparável, com milhões de histórias comuns, que dividimos e relembramos recriando os domingos felizes e a rotina feliz das nossas infâncias.
Minha tia teve oito filhos. Havia a turma dos mais velhos, que eram uma referência, quase um modelo a ser seguido, mas que não pertenciam ao nosso grupo formado basicamente por meninas: éramos eu e minhas primas Isabel (minha xará e companheira inseparável), Regina e Márcia. Meu irmão João e o primo Paulo, mais novos, iam atrás de nós, com suas brincadeiras de meninos que incluíam caçar passarinho, pescar e andar de carrinho de rolimã, o que travessamente também fazíamos, o que valia muitos arranhões nos joelhos.
No domingo colocamos a vida em dia. Falamos dos filhos, da vida e principalmente rimos muito. Tinha esquecido como era gostoso rir de perder o fôlego, rir de passar mal, rir de si mesmo, dos outros, sem julgamento e até chorar de rir. As histórias muitas vezessó eram engraçadas para nós que as vivemos; os filhos e cunhadas que não estavam lá para ver, riam mais das nossas risadas e da nossa alegria, do que do fato em si. De novo éramos meninas que riem sem motivo, que conversam, conversam, conversam e o assunto nunca acaba. E ríamos de novo. Das lembranças, de nós mesmas, das situações, das bobagens adolescentes, dos paqueras, dos grandes amores que viraram pó... Nenhuma lembrança amarga. Tudo muito doce, com pitadas de saudade e salpicadas com sabores de infância a invocar os pratos simples que me tia fazia, mas que nos pareciam manjares divinos e que continuamos a perseguir nas comidas que preparamos, já adultas, para nossos filhos.
Não sei ainda o que , mas algo em mim, amoleceu. Foi como se tivesse voltado para casa e reencontrado um lado menina, descompromissado, quando era fácil ser feliz, tudo era bonito, gostoso e a vida uma constante aventura.
Hoje o sol amanheceu com um brilho diferente. Voltou a ser o mesmo sol da minha infância, quando o brilho espantava os fantasmas de São Paulo, onde morávamos, e que era uma cidade na minha lembrança toda cinza.
São João começava já na rodoviária, com sua profusão de cores, com o ônibus colorido que nos trazia e onde desembarcava num mundo de primas, brincadeiras e liberdade.
Neste domingo, olhando cada rosto, por traz dos sinais que o tempo marcou, o que prevaleceu foi o brilho dos olhos. Todos nós éramos crianças de novo. Sem medo, livres e com a vida toda pela frente. Falamos a linguagem do coração e mergulhamos na pureza e ingenuidade de nossas infâncias para, de alma lavada, enfrentarmos as nossas rotinas. Tomara estes vínculos possam agora ser mantidos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Uma história fala mais que muitas teorias

Estou escrevendo um livro que vai retratar o que foi a I ONG Brasil, evento organizado pela Secretaria de Participação e Parceria de São Paulo, no final do ano passado. Participei desde o início da montagem, dos convites, da formatação do evento, dos temas das palestras, debates e mesas redondas. Fiz contato com inúmeras organizações sociais e no final conseguimos juntar mais de 500 ONGs e 120 palestrantes que se revezaram em Mesas Redondas e Discussões Plenárias. O livro contará a experiência de organizar o evento, formar redes sociais na sua divulgação, e o mais importante, irá compartilhar como foi fazer um evento a muitas mãos, com as decisões coletivas feitas por um grupo de voluntários provenientes de diversas organizações sociais. Mas o mais importante e que o livro irá democratizar as discussões e compartilhar as experiências, as tecnologias sociais vigentes, traçando um paralelo de onde está e para onde caminha o terceiro setor.
Estou cada vez mais convencida que tudo de mais moderno, mais significativo e realmente revolucionário no que diz respeito ao desenvolvimento social está nas mãos de um punhado de mulheres que formam o Terceiro Setor. São estas dirigentes que com seu trabalho, sua garra, sua coragem de fazer frente aos desafios, que tem as melhores respostas e soluções para diversos problemas.
Este é o papel do terceiro setor. O Estado tem uma função que é generalista. Não é de sua prática adentrar nos detalhes, nas especificidades. São as Ongs, com o seu exercito de voluntários que conseguem enxergar as diferença e produzir ações individualizadas, focadas em valores que passam ao largo da iniciativa privada e do poder público, como a solidariedade.
Também não se trata de formar sistemas de dependência. Claro que sempre haverá momentos em que é preciso mergulhar na miséria para resgatar o ser humano que lá está,no fundo do poço. Mas esta é uma ação que precisa ser pontual.
É preciso criar soluções, capazes de motivar o individuo, mostrar a ele o caminho e ajudá-lo a curar as feridas.
Os números do setor são impressionantes. No Brasil, segundo o professor Merege da FGV, são mais de 300 mil organizações sociais. Juntas elas movimentam cerca de 5% do PIB e empregam mais de 3 milhões de pessoas, além de cerca de 15 milhões de voluntários.
Nos Estados Unidos, o setor representa 13% do PIB, movimentando cerca de 1,7 trilhões de dólares em pesquisa divulgada em 2006.
Foi uma grata satisfação poder participar disso. E a cada capítulo que escrevo minha fé neste setor ainda nascente cresce e se fortalece.
Confira um trecho do livro, onde, numa discussão sobre o papel do educador social Marcos Lopez, professor e educador social, do Instituo Rukha, autor do livro Zona de Guerra, conta a sua trajetória, numa mostra corajosa de que para mudar é preciso querer, ter as ferramentas certas e encontrar alguns anjos de plantão:

“O Instituto Rukha surgiu da indignação de um empresário que passava todo dia na Faria Lima e via, todo dia, um menino trabalhando. Ele pensou:
_Puxa vida meus filhos estão em casa, rodeados de seguranças e este moleque aqui, trabalhando?
Ele parou o carro, chamou o menino, pagou um lanche para o menino que foi contando como a vida acontecia, como eram as coisas dentro da sua casa. O empresário que já queria montar uma ONG, teve uma idéia e chamou um Neuropsicanalista para fazerem isso juntos. Foram investidos R$ 30 milhões no projeto. O objetivo é juntar pessoas que tiveram, ou que tem experiência com o trabalho infantil, para atuar junto às famílias de meninos e meninas que estão trabalhando em faróis.
Começou com oito educadores, que ia para os semáforos . O Instituto oferece um auxílio desenvolvimento de R$ 350,00 para as famílias dos meninos de alguns faróis. A gente sabe que estes meninos tiram até R$ 800,00, R$ 1000,00 e se você for ver, os meninos no farol estão brincando. Estão brincando, correndo, jogando água um no outro. Mas não sonham mais. Nós colocamos de novo na escola, colocamos em um núcleo sócio-educativo e fornecemos uma oportunidade, devolvendo aos pais, também, a chance de sonhar. Tem mais um auxilio de R$ 150,00 para que a família possa fazer o curso que ela quiser. O papel do educador é acompanhar esta família. Levar no dentista, se for preciso... O instituto tem psicólogo, neuropsicanalista, pediatra e outros médicos.
A minha história dentro do Instituto é engraçada. Quando eu soube deste trabalho eu disse: é a minha cara este trampo! Me inscrevi, fiz o teste. Aí me chamaram e disseram:
_A gente gostou muito de você. Mas só que tem um porém: você não tem experiência com favela.
Puxa vida, como ela podia me dizer que eu não tenho experiência com favela? Aos sete anos de idade fui morar no Parque Santo Antônio, uma das áreas mais violentas da zona sul, de São Paulo, na década de 90. O Gil Gomes, uma vez falou que não entrava lá nem escoltado. Como uma mulher que vem do lado de cá da ponte me fala isso?
Quando mudei para o Parque Santo Antonio. Meu pai era alcoólatra e me batia. Conheci a Casa do Zezinho, que nem tinha este nome aos 10 anos. Ia com manga comprida, pra Tia Dag, pra tia Corina, não ver os hematomas e ninguém chamar a polícia para o meu pai.
Aos 12 anos, meus pais se separaram. Aos 14 anos eu fui expulso da escola, por ter assaltado a cantina à mão armada. Aí abandonei tudo e fugi para o Rio. Fiquei lá seis meses e conheci um traficante que me ensinou a manusear arma, como trabalhava a cocaína, a maconha, o crack. Depois conheci um estelionatário que me ensinou a falsificar RG, passar cheque sem fundo, como ludibriar.
Voltei, chamei os parceiros e falei:
_Mano, aprendi uma porrada de coisa da hora. E nós vamo ficá rico.
Aos 16, eu gerenciava a boca de fumo da quebrada onde eu nasci. Aos 17 anos, minha melhor amiga estava indo para o velório de uma outra amiga, que tinha morrido por causa do tráfico que eu gerenciava. E aí, voltando, fecharam o carro dela e fuzilaram ela. A mesma amiga, minha melhor amiga, que horas antes tinha me dito:
_Credo, se eu morrer não quero ser enterrada no cemitério São Luiz. Você promete pra mim?
_Vira a boca pra lá, eu disse, mas ela insistiu:
- Você promete? Eu prometi
O Cemitério São Luiz é um cemitério na Zona Sul de São Paulo, onde 40 a 45% do cemitério é ocupado por jovens e adolescentes entre 13 a 27 anos. Eu estava na estatística...Mas como eu tinha prometido, ficava feio eu deixar a mulher ser enterrada no Cemitério São Luiz. Ai, voltei na Casa do Zezinho e procurei a Tia Dag e perguntei se ela podia me dar o dinheiro para eu enterrar a minha amiga.
Ela me disse:
É... te dou. Mas quero saber quem é o indivíduo que vai vir aqui buscar dinheiro pra te enterrar. Pra enterrar o neném, do Parque Santo Antonio... Sai desta vida. Este bagulho não vai te levar a lugar nenhum.
Pensei. E decidi ir trabalhar na biblioteca na Casa do Zezinho. Na semana que eu comecei a trabalhar, meu melhor amigo pegou 67 anos de cadeia, por tráfico de drogas, homicídio.
Na biblioteca. Li um livro chamado “Capão, pecado”. Aí eu pensei: Nossa, o cara escreveu a quebrada dele. Vou escrever a minha também. Um dia eu vou ser igual o Ferrèz. E comecei a escrever...
Aí, um dia, uma amiga veio me falar:
_ Ó Neném, passei no vestibular.
_ Vestibular para quê?
_ Pra Administração.
Eu falei:
_ Bem a tua cara, bem Zé povinho. Vai administrar a vida dos outros...
Ela só deu de ombros.
Na mesma hora, tava descendo a rua, veio um outro mano.
_Oh, Neném, passei no Vestibular.
Eu de novo:
_Vestibular de que?
Ele:
_ De turismo.
_É vai lá viajar com os playboizinho...
Ai ele me disse:
_Melhor viajar com os playboy que ficar ganhando R$ 300,00 a minha vida toda.
Eu fiquei pensando...Na época era o que eu ganhava. A primeira vez que vim aqui, no Center Norte, foi para ganhar R$ 300,00 e fazer faxina e limpar o banheiro.
Caiu a ficha. Não vou ganhar R$ 300,00 a vida toda. Estudei, fiz vestibular e entrei na Universidade de São Paulo. Um ano e meio de faculdade eu fui na escola em que tinha sido expulso para dar aula.
A diretora me viu entrando e só disse:
_ Vixe! Aqui não tem vaga pra você, não. Vai estudar lá no Sussumo.
O Sussumo, o Sussumirata , era uma escola no Jd. Lídia, que era onde tinha a maior boca de fumo do Capão.
_Mas quem foi que falou pra você que eu vim estudar! Eu vim ser professor!. E mostrei para ela o papel da escola.
Ela me olhou, olhou de novo, chamou a professora, a coordenadora, que já chegou perguntando que projeto eu tinha para a escola, pra me barrar.
Eu pensei um pouco e disse:
_ Eu tô ligado que aqui nesta escola some carro. Aqui dentro tem boca de fumo...Em dois meses eu prometo que não vão sumir mais carros e nem vai ter boca de fumo.
_ Como você vai fazer isso? Ela me perguntou.
_ Como é que eu vou fazer é problema meu! Topa?
_Tá bom, vamo ver...Ela falou meio desacreditada...
Dei dois meses, sabe por que? Porque eu conhecia os entrujão, os caras que roubavam os carros e o dono da boca. Cheguei e falei:
_Não tem mais venda de droga na escola. Carro não sai mais. Pronto, resolvido.
E como é que uma mulher do Instituto Rukha vem me dizer que eu não tenho experiência em favela!
Pensando em tudo isso que vivi falei pra ela:
_ Minha senhora, como é que eu faço pra adquirir, então, esta experiência em favela?
Ela me devolveu:
_O que é que você sugere?
_ Trabalho três meses, de graça, para entrar no Instituto e a senhora me avalia. Se eu não passar nestes três meses, a senhora me chuta. Se não, eu fico.
_ Fechado! Disse ela.
Fui trabalhar três meses de graça. Sabe o que é trabalhar três meses de graça, sem dinheiro pra comer, para pagar ônibus? Três meses passando por baixo da catraca, para trabalhar! Quando não tinha mesmo o que comer, ia almoçar na Casa do Zezinho.
Depois de três meses fui efetivado... Mas aí fiquei vendo...A gente faz as visitas nas casas. Mas só olhava as famílias que dávamos o auxílio. A instituição atende 200 famílias. Mas achava muito pouco. Um dia uma criança me perguntou como fazia para entrar na ONG. Eu disse que era um negócio complicado, porque só tem um cara que financia e não abre vaga.
Aí uma mãe me perguntou a mesma coisa. Eu disse o mesmo. Ela pediu para eu falar com o filho dela e disse que ia chamar, porque ele tava trabalhando.
Eu falei pro moleque:
_ Você tava trampando, pode voltar lá ,depois a gente fala.
_Não, eu faço um doze aqui. Passo droga...
_Sai dessa, maluco! Eu disse. E aí contei pra ele a mesma história que eu to contando aqui. Mas aí, ele me disse:
_Se eu sair do tráfico vão tomar a minha casa...
É que na casa dele ficava a boca.
_ Mas você quer sair? Perguntei
_ Quero.
_ Quanto tempo você precisa pra sair do crime?
_ Duas semanas, disse ele.
_Então tá, em duas semanas a gente fala.
Enquanto não tava dando as duas semanas, eu fui articular com a Tia Dag, na Casa do Zezinho. Fui no colégio Sieja, onde mais de 50% das vagas são para crianças com necessidades especiais.
Em consegui arrumar recursos para construir uma casa pra este moleque. Quando ele falou: Marcos, saí do crime, eu disse para ele vir comigo que eu tinha arrumado um emprego pra ele.
Coloquei ele para trabalhar no Sieja, para atender as crianças com necessidades especiais na escola.
Quando voltei no Acarati, no lugar que ele morava. Um cara, de cima de um cavalo, colocou uma pistola na minha boca. E me falou:
_ Malandro, o que é que você está fazendo aqui?
_O mesmo que você, parceiro. Respondi. Estou ajudando a sua comunidade. Acho que você faz o mesmo...
_ É nóis...Disse ele...
Eu fui me aproximando de tal jeito do cara, que ele foi me contando que o sonho dele era trabalhar com cavalos, que ele queria sair do tráfico para trabalhar em Haras. Hoje é um dia especial, porque hoje ele foi aprovado e vai embora, para trabalhar, num Haras.
Ele já saiu do crime eu também pus ele para trabalhar no Sieja. Por que trabalhar com pessoas com necessidades especiais? Para se colocar no lugar do outro. Para ver como é viver em uma cadeira de rodas, sendo cego, surdo.
O papel de educador social vai além da sala de aula. Precisa deixar para agir com a cabeça, quando estivermos numa sala, falando de metodologia. No resto é deixar o coração agir, deixar o coração falar pela gente. Balança as mãos, balança as pernas, a cabeça e deixa o coração falar. Se for agir com a razão não é assim. Enquanto o outro está falando, você está arquitetando para derrubar o outro. Mas se deixa o coração falar, aí é verdadeiro. Ele é a parte mais sincera da gente.
Ser educador social é transpor isso é ir além. É muitas vezes chegar na sua casa às 11 horas da noite porque estava fazendo uma mediação. A minha mediação de conflito é diferente da de outros. Às vezes é um cara que comprou uma pedra na boca e não tem como pagar e eu preciso ir lá e negociar a vida do cara, com o traficante.
Posso estar em casa dormindo, jogando futebol. Pode me ligar que eu vou. Eu faço isso porque eu tenho uma dívida com a sociedade. E pretendo nunca pagar esta dívida. Porque enquanto a educação não for um instrumento de inserção social, o mundo continuará este pé de guerra.”


Depoimento de Marcos Lopez

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Um novo começo

Quando senti a agulhada na espinha, já era tarde para voltar atrás. Não que tivesse opção. Após 15 dias de consultas inocentes, remédios paliativos e diagnósticos contraditórios capitaneados por uma sempre necessária busca de causas, devidamente alicerçada pela psicologia e homeopatia, a cirurgia de emergência para a retirada de um apêndice retrocecal, era inevitável.

Não que estivesse claro para todos que estavam na sala de cirurgia de que se tratava mesmo de apendicite. O diagnóstico foi feito por exclusão e palpite: não era nada ginecológico, também não se tratava de pedras nos rins, nem pedras na vesícula. Uma virose também estava descartada, um tumor no intestino teria outros aliados. Por sua vez, o exame de sangue não apontava uma infecção capaz de fazer levar a sério a hipótese de um apêndice supurado. O ultrassom, coitado, apenas detectou um certa paralisia ao respirar de um lado do intestino, que poderia ser diversas coisas, mais sérias inclusive, mas não uma apendicite convencional. O raio X, em diversas posições estava limpo, como de um recém nascido.

A única pista estava na dor, do lado direito como convém aos apêndices, mas ainda assim, em posição errônea e com jeito de cólicas intestinais que iam e vinham. De constante mesmo, apenas uma náusea, que não me deixava engolir. Por sorte (?) outra pessoa semanas antes passara pelo mesmo calvário até o diagnóstico do apendice retrocecal, que fica encoberto pelo intestino e portanto, invisível para exames. Foi este diagnóstico que abriu caminho para a cirurgia.

Com isso, o apêndice roto e necrosado jazia envolto em brumas de inconsciência e a cirurgia era muito mais exploratória do que algo definido no preto e no branco como bem requer a santa alopatia.

Depois da agulhada, meus braços foram atados em talas ao lado da mesa. Cada membro acoplado a um aparelho diferente. Foi aí que me quedei imóvel. As pernas não mexiam mais, anestesiadas que estavam; os braços também não e a sensação de impotência começou a crescer. Como me coloquei nesta situação? Não parava de me perguntar.

Tentei fugir para algum lugar dentro de minha mente, onde eu ainda era eu e não um pedaço de carne que seria retalhado por dois desconhecidos, armados de bisturis, numa sala estranha, com enfermeiros preocupados com horários e um anestesista que fedia a cigarro, como só as narinas de um ex-fumante consegue detectar.

Mas o lugar abençoado não vinha. Nem mesmo aquele aposento tranquilo e florido, onde me refugio nas meditações apareceu para me salvar. Tentei rezar, mas as palavras não se formavam, estavam congeladas em um limbo e por mais que eu invocasse a presença de São Miguel, Nossa Senhora, Deus, minha mãe, minha vó, todas as mulheres já mortas da minha família, as frases não se juntavam e o que eu tinha era apenas o presente: duro, impalpável, sem chances de mudança. Era o agora e eu não gostava nada, nada do que estava vendo e sentindo.

Senti nitidamente o corte com o bisturi. Não havia dor, mas a sensação da carne cortada e depois afastada foi nítida. Reclamei. Disseram que era assim mesmo. Senti que estava aberta e que mãos exploravam o interior do meu ventre, tateavam órgãos e eu alí, parada, inerte, como uma coisa, um objeto a ser dissecado.

O bip dos aparelhos marcava os batimentos e a pressão sanguínea que normalmente já é baixa, mas que naquela situação estava em 9 por 6. Minha mente tentava lembrar qual é o limite, até quando a pressão pode baixar e qual é o batimento ideal, mas nada me parecia adequado. As palavras, velhas companheiras, haviam me abandonado e eu estava parada, presa onde tudo eram somente sensações.

Os bips indicavam que tudo continua a baixar e decidi que o melhor a fazer era controlar os números, já que somente eu parecia interessada neles. Os médicos estavam focados na exploração dos meus interiores, dizendo coisas absolutamente assustadoras.

__Olha como está isso?Disse um.

__ É mesmo apendicite, mas olhe onde está!? Não consigo chegar por aqui... Argumenta o outro.

__Corta mais, vai, afasta mais, tem que chegar. Meu Deus olha o estrago...

E eu ouvindo isso, como se tratasse de uma outra vida...De uma outra pessoa...

E o médico começa a tirar o apêndice. Mal ele toca e o estômago dá sinal de vida. Pânico.

___Gente vou vomitar, mas como façosem levantar a cabeça? Pergunto.

___ Vira a cabeça de lado, responde o médico. Cadê o anestesista? Berra o outro.

O anestesista vem, o enfermeiro segura uma toalha e me olha bondosamente, apertando minha mão. Olho o tal aparelhinho e a pressão está 6 por 4. Sinto uma pressão no peito que não vai embora. Parece que vou afogar e os batimentos caem para 80. Correm e colocam outros medicamentos, na minha veia. A pressão sobe, os batimentos normalizam...

_ Quantas gazes você abriu? Pergunta o médico ao instrumentista.

Vejo que eles começam a contar e comparar os envólocros com as gazes ...

_ Tem uma, duas.... oito, dez....

_ Falta uma gaze, onde está.....

_ Caiu no chão. Tá certo....

Eu fico pensando que só falta ter ficado uma dentro. O médico reconta. Acho que ele recebe a minha angústia e se contenta de que está mesmo certo.

Chega o pânico: quero sair dali. Quero me retirar desta situação. Quero ir embora. Qualquer lugar serve, mas tem que ser agora.

__Já tirou, não dá para fechar? Pergunto.

__ Calma, já estamos fechando...

__Não posso pelo menos mexer os braços?

Calma já vai acabar...

E o nariz começa a coçar. Não sei porquê, nem sabia que nariz coçava, mas o meu resolveu coçar naquela hora, como a garantir a minha insignificância. Fiquei pensando: quem passou por algum tipo de tortura, devia ser semelhante àquilo. Peço ao bondoso enfermeiro que me ajude. Ele entende a minha agonia e coça o meu nariz. Também não devo ser a primeira a ter esta coceira. Começo a tremer. Tremo incontrolavelmente, os braços se debatem, tenho medo. Parece que arrancaram algo que me era caro. Não sei porque isto acontece. Tenho medo. O enfermeiro de olhos bondosos segura a minha mão para eu parar de tremer, enquanto os médicos discutem sobre o tamanho dos pontos. Um é mais caprichoso, gosta de costura mais fina e pontos próximos. Outro faz pontos ao longe, não vê sentido em pontos perfeitos, onde ninguém vai ver. Na verdade seu celular já tocou duas vezes e ele não vê a hora de acabar com aquilo. Missão cumprida, a vida segue...

Aí me dou conta que estava acontecendo duas cirurgias diferentes naquela sala: uma era ligada à minha dor. Outra era uma coreografia, que fez com que anestesistas e enfermeiros espiassem por cima de ombros, o trabalho dos cirurgiões. Vi admiração nos olhos deles algumas vezes, como a aprovar as mãos que talhavam a carne; vi preocupação em outras, que se evidenciava num respirar mais curto e olhares mais duros. Findo o desafio, o balé era agora o de todo os dias.

Não podíamos mesmo ser parceiros. Estávamos em estradas diferentes. O paciente era eu e pecador absoluto em meu pecado, todo poderoso construtor dos meus desvarios, onipotente ser do controle e da raiva, confesso-me a mim. O que supurou e o que fez gangrena agora é passado. Resta uma nova vida. Um novo começo a brindar a alegria da vida, extraída dos estertores da morte.

Que venha!

Antes tarde...

Falando de novos começos, este já chega velho: tem quase meio ano.

Mas há outras novidades que se interpuseram neste caminho e que garantem um novo início, digno do nome. O mais recente é a vontade de não mais me afogar em palavras. Há muito que elas me despertam, enchem as madrugadas, mas não irrompem como deveriam, nem saem aos borbotões como esperado. Ficam represadas, inundando pensamentos que não são verbalizados, numa verborragia tóxica, sem razão de ser.

As que se aventuram uma tarefa solo, saem mixurucas, quase sempre inebriadas pelos vapores do ego, que pensa, analisa, descarta e as condena, naquilo que poderiam vir a ser .

Sempre precisei da disciplina de um fechamento de edição para que as palavras desordenadas encontrassem o seu lugar. As vezes deixava para a última hora, afogada em dúvidas que eram apuradas e reapuradas, até que elas, enfileiras e bem comportadas, iam todas aos seus postos, enchendo laudas, páginas e cadernos.

Depois, exaurida a tarefa, prostava-me incrédula, sem saber direito qual trem me atropelara. Agora, neste novo começo, tenho vontade de deixar que elas desabrochem, sem rumo certo, apenas pelo prazer de vê-las ordenadas fora da minha mente, para ver se fazem algum sentido. Seja bem vindo nesta viagem....

Novos desafios, novos começos

A vida sempre muda as perguntas, quando acho que tenho as respostas...Estou num destes momentos em que novos começos se fazem necessários... No meio do torvelinho, por que não um blog? Por que não arriscar novas praias... Vamos ver no que dá...